quinta-feira, 9 de outubro de 2008

O Dia Seguinte

Essa é pra quem costuma sair à noite, no meio da semana...


"Acordo. Ou melhor, sou retirado de um turbilhão confuso de pensamentos e
lembranças que precisariam de mais umas quatro horas para que fossem
chamados de sono pelo blá blá blá longínquo de um locutor de
rádio que saía do rádio-relógio mal sintonizado.

Entre isto e acordar há um abismo de diferença. Sento na cama.
Imediatamente o quarto dá uma volta completa em torno do que restou do meu
fígado e eu lembro que estou de ressaca.

O giro do quarto somado à sensação de que estou vestindo uma meia de
algodão na língua estimulam o meu primeiro pensamento lúcido do dia, e
talvez um dos únicos : puta-que-pariu...

Depois de deitar e levantar umas 10 vezes, em uma dúvida cruel en tre pedir
demissão para dormir mais um pouco e chegar até o chuveiro para salvar o
meu emprego, decido manter-me no mercado de trabalho e vou cambaleando até
o banheiro.

Faço uma parada no corredor e tomo 750 ml de água no bico da garrafa
térmica. Os 250 ml restantes escorrem pelos cantos da boca molhando a minha
camiseta "Jânio Quadros Prefeito 85".

Chego até o espelho do banheiro, vejo o meu reflexo com um misto de pena e
uma expressão do tipo depois-eu-converso-com-você-mocinho.

Dou aquela checada no pânceps -- aquele músculo logo abaixo do abdômen, mas
nem me dou o trabalho de encolhê-lo. Preguiçosamente começo a escovar os
dentes. A secura da desidratação alcoólica molhada pela água há pouco
ingerida formaram uma gosma espessa de cuspe que em contato com a pasta de
dentes começa a produzir uma quantidade inominável de espuma na minha boca.

Depoi s de quase engasgar, entro no chuveiro determinado a tomar um banho
gelado. Mas ainda não foi desta vez. Eu tenho alguns pensamentos
recorrentes quando estou de ressaca, como a obrigação auto-impingida de
tomar um banho frio, parar de fumar pelas próximas três semanas, e
outras mais comuns.

É claro que, como toda promessa de ressaca, no dia seguinte você está
fazendo tudo de novo. Mas uma coisa que eu nunca consegui foi tomar banho
gelado para curar bebedeira. Claro que não estou contando aquele banho de
roupa que sua mãe te deu quando você tomou o primeiro fogo.

Ah! O primeiro porre...... Este passaporte de entrada para um universo que
começa em euforia, termina em arrependimento e tem uma complicada
contabilidade de horas de sono no meio.

Este universo com o qual você vai conviver durante toda a sua vida adulta,
só saindo dele através de um SIM proferido em uma igreja ou qualq uer que
seja o foro apropriado da sua religião. E olhe lá!

Este universo que você só vai perceber quando for tarde demais, consome
todo aquele dinheiro do plano de previdência privada que você nunca fez,
apesar das constantes investidas da sua gerente do banco. O universo do
macho solteiro.

Quando volto a mim, ainda estou parado do lado de fora do box, água caindo
há meia-hora, os olhos fixos em nada, divagando sobre estas e mais uma
porção de outras bobagens. Recomeço a função mecânica matinal, um tanto
prejudicada por um conflito inequívoco de hardware.

Ao lavar os olhos, só consigo deixá-los mais vermelhos, já que com tão
poucas horas de sono o corpo nem deu tempo de produzir remela suficiente.
Em compensação o nariz trabalha incessantemente produzindo cacas enormes,
escuras e malcheirosas que dão um prazer imenso de
tirar, produzir bolinhas, e dispô-las com um p eteleco.

Não me recrimine, o banheiro serve para essas coisas. Feio é fazer no
trânsito...

No meio do banho, eu olho para ele. Ele quem? Ele, oras. O companheiro, que
neste momento está encolhido, ensopado, sujo e mal-humorado (sim,ele tem
humor). E aí você começa a lembrar da noite anterior.... E aí começam os
seus problemas.....

A coreografia de "Ganso do Sargentelli" que você fez para as amigas da sua
prima. Aquela hora que você acreditou piamente que era o cara mais bonito
do lugar e ficou trocando olhares com todas as mulheres, você de sedução, e
elas de desprezo ou piedade.

Aquele beijo que você tentou arrancar a força da garota mais feia do lugar,
e não conseguiu.

E finalmente, aquele momento em que você se tornou milionário, pediu uma
garrafa de Taittinger para brincar de pódio de Fórmula 1 (cantando tã tã
tã) e encerrou a noite d eixando o restante do seu salário em um prostíbulo
de luxo, não sem antes tentar sexo gratuito com todas as "amigas" da casa
(afinal de contas você ainda era o cara mais tesudo da cidade).

Daí para frente, só o que você vai sentir ao longo do dia são pequenas
dores, morais e físicas, causadas pela noite anterior.

A taquicardia provocada pela quantidade paquidérmica de energéticos que
você ingeriu, o telefonema da sua gerente do banco dizendo que só aumenta o
seu já estourado limite se você fizer o tal do plano de previdência, uma
vontade incrível de ir ao banheiro para um número 2 que você segura porque
não há bidet no escritório e você não quer interditar o toalete; e o maço
de cigarros todo úmido e amassado que você insiste em manter no bolso mesmo
que jure para si mesmo que vai parar de fumar.

Até que, depois de fingir o dia inteiro que vc trabalhava, chega o final do
expediente, toca o telefone e você ouve aquela voz familiar :

- Faaaaaala, seu mééééééérda ! Onde é a cachaçada hoje ?!?!?!?

Pronto. Começa tudo de novo."


Autor desconhecido, mas queria conhecer pq esse é dos meus!

Um comentário:

Felipe K. disse...

essa rotina é a única que eu insisto em manter!!